Entre memórias adultas e brincadeiras, uma reflexão sobre o conflito entre a infância que projetamos e aquela que escapa às nossas expectativas
Na última semana de julho, visitei a exposição “Uma Viagem ao Mundo dos Brinquedos”, aberta no Farol Santander de 14 de julho a 14 de dezembro de 2026. Era uma quinta-feira de manhã, durante o período de férias escolares, e o grande hall do antigo banco, que hoje funciona como centro cultural, estava cheio de crianças e adultos, em um encontro de gerações mediado pela atmosfera dos brinquedos e do brincar.
Enquanto tirava fotos, maravilhada com a riqueza de detalhes realistas dos cenários nos quais figuravam as bonecas Susi, imitando cenas íntimas de um lar burguês brasileiro dos anos 1960, assim como com os trens e trilhos em miniatura, além dos primeiros bonecos da Turma da Mônica, entre tantos outros, percebi que as crianças ao meu redor se relacionavam de modo relativamente refratário àqueles objetos.
Olhavam através do vidro das caixas de exposição e, muito rapidamente, seu interesse pelo objeto se deslocava para a possibilidade de dirigir o olhar para fora do vidro. Pela lateral, por exemplo, era possível fazer uma careta para a amiga que estava do outro lado e combinar uma corrida para o próximo expositor, passando por baixo deles, ao mesmo tempo em que se escamoteavam em um esconde-esconde deslizante.
Daí em diante, fui observando mais e mais a diferença entre as formas de nos relacionarmos, adultos e crianças, com aquela experiência. Enquanto eu me remetia nostalgicamente a cenas de minha infância ao me deparar com brinquedos dos anos 1980 e 1990, tentando contar para elas algo a respeito, as crianças se relacionavam com eles como se ora fizessem parte do mobiliário que emoldurava a exposição, ora entrassem em tensão com eles, como que em conflito com os sonhos e os vestígios dos sonhos das gerações mais velhas.




