Mudanças no currículo escolar, concessão de escolas estaduais e bonificação financeira por resultados em avaliações externas. Esses fatores parecem ditar os rumos da educação pública no Rio Grande do Sul, fortemente influenciados pela introdução de capital privado.

A privatização da educação pública é estudada por um grupo de pesquisadores da UFRGS, da Ufpel e da Furg. Tudo começou quando o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais (Neppe), da Ufpel, se debruçou sobre a parceria da Prefeitura de Pelotas – na época comandada por Eduardo Leite – com a consultoria Falconi, anunciada em 2014. A empresa, contratada sem licitação, faria a gestão de todas as escolas municipais, por dois anos, pelo valor contratual de R$ 2 milhões.

A Falconi não era uma empresa desconhecida. Batizado de “mago da gestão”, seu fundador, Vicente Falconi, já havia prestado consultorias no Rio Grande do Sul para os governos de Germano Rigotto e Yeda Crusius. Mais tarde, a consultoria viria a protagonizar uma “terceirização da privatização” em Porto Alegre: a Comunitas, organização contratada pelo então prefeito Nelson Marchezan Júnior (PSDB) para implantar o projeto Juntos pelo Desenvolvimento Sustentável, contratou a Falconi para prestar serviços à Prefeitura.

Na época, o Neppe constatou que os governos do PSDB – então partido de Leite – eram bastante propensos a parcerias com a Comunitas na área da educação. Alguns dos maiores nomes do empresariado brasileiro financiam a Comunitas, conforme um estudo de 2020: Rubens Ometto (Cosan), Carlos Jereissati Filho (Iguatemi), José Roberto Marinho (Grupo Globo); Ricardo Villela Marino (Itaú), Pedro Paulo Diniz (Grupo Pão de Açúcar) e Ana Helena Vicintin (Votorantim) são alguns deles. 

Em Pelotas, o contrato com a Falconi foi anulado um ano após ser firmado, em 2015. Dois anos depois, a Justiça suspendeu o acordo entre a Comunitas e a Prefeitura de Porto Alegre, por falta de chamamento público para contratação da empresa. Também veio à tona, na época, que sete dos 14 nomes indicados como voluntários responsáveis pelo processo de entrevistas e seleção do Banco de Talentos, criado pela Comunitas para a contratação de “profissionais qualificados” para trabalhar na Prefeitura de Porto Alegre, acabaram sendo nomeados eles próprios em cargos de confiança.

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